Crónicas, Mundo

Run Oliveira, run

Preparamo-nos para sermos escritores fazendo as coisas instintivas que nos alimentam e que alimentam a palavra, que nos protegem contra a morte em vida. É diferente para cada pessoa. E vai mudando para cada uma delas. Para mim já foi beber muito, beber quase até enlouquecer. Ajudava-me a moldar a palavra, a fazê-la surgir. E eu precisava do perigo. Precisava de me pôr em situações perigosas. Com homens. Com mulheres. Com carros. Com o jogo. Com a fome. Com qualquer coisa. Isso alimentava a palavra. Passei décadas assim. Agora mudou. O que preciso agora é mais subtil, mais invisível. É uma sensação no ar. Palavras ditas, palavras ouvidas. Coisas vistas. Ainda preciso de beber alguma coisa. Mas hoje em dia, gosto de nuances e de sombras. O que me alimenta as palavras são as coisas de que mal me apercebo.”

Charles Bukowski, O Capitão Saiu para Almoçar e os Marinheiros Tomaram o Navio (Alfaguara , 2016)

 

Agora corro. Está na moda, eu sei, 
to run or not to run
mas não é por isso. Sempre corri, só que agora mais.
– Parece-me um desperdício de tempo ires correr quando só tens dois dias para ver a cidade – diz-me a minha mulher.
Encontrámo-nos em Nova Iorque. Ela de férias com o irmão, eu em trabalho, para a Volta ao Mundo, uma reportagem de duas semanas pelos Estados Unidos.
Um dia hei-de escrever sobre estes dias, mas não agora. Agora passo os dias a correr.
– Não estarás a exagerar?
Descansem, não me verão a perorar sobre a poética da corrida. Até Murakami já escreveu sobre o assunto, Auto-Retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo. Mais depressa me transformo num hikikomori* do que num Murakami.
Ainda não encontrei qualquer literatura na corrida, ao contrário do futebol, se bem que Correr, romance de Joan Echenoz, é uma verdadeira obra de arte. Conta a história do checo Emil Zátopek, ainda hoje, o único atleta a ganhar os 5 mil, 10 mil metros e a maratona nas mesmas Olimpíadas, em Helsínquia, 1952. Era meio corcunda, parecia carregar às costas o comunismo.
Eu corro por turismo. “Quando chego a uma cidade onde nunca corri o primeiro impulso é programar uma volta. É preciso estar em forma, caso contrário comem-nos vivos”. A frase não é minha, é do antigo primeiro ministro português. De nada lhe valeu. “You Can run, but you can’t hide“, não é o que diz a música?
Já aqui falei de um dos meus pesadelos http://www.grandeturismo.com/2015/11/19/so-o-pao-nao-cai-do-ceu/. Outro dos pesadelos recorrente é ir parar à cadeia. Estou fechado numa cela, não sei bem qual o crime, mas deve ter sido grave, porque estou na solitária. Muito magro. O único guarda que de vez em quando me dá comida é o meu pai. Nesses dias levanto-me e vou correr.
– Onde é que foste? – pergunta-me o Reinaldo Rodrigues, fotógrafo, em New Orleans, vendo-me em calções no lobby do hotel às seis da manhã.
De há dois anos para cá também eu corro em todo os destinos onde vou, Estados Unidos, Vietname, Cuba, Moçambique, Islândia. Corro às escondidas, às vezes de madrugada, para não pensaram que eu não sou maluco, eu não sou maluco.
Um destes dias, à saída da redação, encontro outro jornalista que corre, faz trails.
– É excelente forma de conhecer os destinos – diz-me. – Vou a sítios onde nunca iria, a horas a que nunca passaria. No final de cada prova bebe sempre uma cerveja. Ou meia dúzia.
Eu corro precisamente porque deixei de beber. O álcool era o meu combustível para o exercício físico. Se bebia muito, e eu às vezes bebia muito, no dia seguinte corria em quilómetros o equivalente ao que bebia em litros. Era uma forma de me manter saudável. Beber nunca me ajudou a moldar a palavra, que eu nunca gostei de escrever com os copos, mas ver a dobrar sempre me pareceu uma benção para um jornalista de viagens que, como eu, nasceu num meio onde o horizonte era uma rua sem saída.
Agora corro para não enlouquecer, é essa a verdade. Tenho uma bactéria abstémia, ou lá o que é, e correr foi a terapia mais barata que encontrei.
– Não estarás a exagerar? Pareces um prisioneiro… diz-me a minha mãe.
– Deixo de correr quando voltar de beber – respondo- lhe.
Não sei ao certo como voltarão a ser as minhas noites, mas gosto cada vez mais das manhãs – o que é que será do escritor que há em mim? Ainda hoje de madrugada, no Brasil, em Rio Grande do Sul, num eco-resort Parador Casa da Montanha, junto ao Canyon Fortaleza, sou capaz de jurar que vi um veado campeiro, lá ao longe. Olhava-me fixamente, desconfiado. Como o barman que, perante o cliente solitário que bebe água a noite toda, não resiste a perguntar-lhe como está a correr a reabilitação.

 

*O termo hikikomori refere-se a jovens japoneses, por norma entre 15 a 39 anos, que se retiram da sociedade, de modo a evitar o contato com outras pessoas.

** Homem de Vilarinho é um conjunto de crónicas de viagem. A totalidade dos textos pode ser encontrada aqui: http://homemdevilarinho.blogspot.pt/

*** A fotografia é do Reinaldo Rodrigues (Global Imagens).

 

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