Crónicas, Mundo

Albino

Albino, como o meu tio. Tio Bino. Foi a primeira pessoa da minha família a morrer. A minha avó materna, Rosa, caiu primeiro, mas os avós não contam, são flores que nos nascem murchas, com os tios é diferente. Ainda me lembro da matrícula da carrinha dele, 18-44-AL, uma Toyota Hyace vermelha, igual à maior parte das chapas africanas, quem sabe se não anda às voltas por Maputo?
Albino, como o meu tio, está sentado num banco de jardim. A seu lado uma guitarra. Não tem ar de sem abrigo, músico de rua, porventura, na casa dos sessenta anos. Barba branca exemplarmente aparada, olhos azuis, se não são azuis fui eu que os pintei, um ar distinto apenas atraiçoado por alguns dentes podres.
Passo por ele, passo e ando, mas há qualquer coisa que me faz parar. Albino lê. Deveria ser uma imagem normal, sabemos que não é uma imagem normal.
– Peço imensa desculpa por interromper.
Saramago – diz – enquanto levanta a capa d’ A Caverna – Às vezes é complicado, mas gosto. Muito. A pontuação. É estranha. Mas as histórias muito boas. O Ano da Morte de Ricardo Reis, Cerco de Lisboa, Ensaio sobre a Cegueira. É o meu preferido. Olá, chamo-me Albino.
A minha avó paterna também era Albina. Bó Bina. Os mesmos olhos claros carregados de melancolia e dor. A mesma serenidade. Ela perdeu dois filhos e um cunhado e tu Albino?
Não pergunto. É Albino quem pergunta. Quer saber o que fazia o meu tio.
– Tinha uma mercearia. A minha avó também.
– De certeza que não eram como as lojas dos chineses – brinca – Os chineses agora estão por todo o lado.
Conto-lhe uma história que me contaram mal cheguei: um empreiteiro português que pegou numa obra chinesa inacabada e no lugar de cimento encontrou paredes forradas a lixo e papel.
– Algumas partes da cidade estão assentes em terreno pantanoso. Se não tivermos cuidado um dia a terra abre a boca e engole isto tudo. Só ficarão os edifícios coloniais. Os edifícios coloniais são eternos, desde que não os deitem abaixo.
O assunto é sério. Nas ruas da Baixa, cheia de palacetes abandonados onde as putas fazem sozinhas a manutenção do património, há quem queira demolir o mal pela raiz e construir arranha-céus.
Albino suspira, pela primeira vez. A conversa muda de rumo. Falamos dos portugueses, agora. De um amigo, arquitecto. Acho que era Miguel. Ou Luís. Brincavam juntos, um branco, o outro preto, um dia o Miguel, ou Luís, foi-se embora mas muitos anos depois voltou e trouxe-lhe livros. Os seus olhos escurecem, o discurso fica algo confuso, já não fala para mim, fala para dentro, ensaia algumas explicações sobre o que correu mal no país, o que aconteceu consigo, até que ao fim de um ou dois minutos – um ou dois minutos que não pareceram uma eternidade mas onde terá condensado toda a sua vida – pega na guitarra e faz um pequeno medley.
O que se passou Albino? Conta-me… Tens saudades do passado ou apenas dos tempos em que eras jovem?
Não vale a pena perguntar. Já o perdi.
Nunca serei um grande jornalista, nunca quis ser, na verdade. Aqui e ali tenho dúvidas, pergunto-me se não deveria deixar-me de viagens e sair definitivamente à rua, depois acontecem momentos como este e eu reconcilio-me com a minha própria passividade. Albino, tenho a certeza, daria uma reportagem daquelas. Uma vida repleta de sombras e espaços por preencher, bastava fazer as perguntas certas. Não é que não tenha faro jornalístico, tenho, mas fecho os olhos, fujo do Pedro Álvares Cabral que há em mim, avesso a essa ideia de que as pessoas são ilhas à deriva que só a nossa caneta pode ajudar a resgatar. Mais do que sacar grandes histórias – até porque haverá sempre outros jornalistas, grandes jornalistas, que farão esse trabalho melhor do que eu – quero, cada vez mais, ficar sossegado no meu canto, se possível nos quatro cantos do mundo, a inventar a realidade.
A realidade é esta: há anos que não me lembrava do meu tio. Tio Bino. Albino, como o meu amigo moçambicano. Bebia aquelas garrafinhas de Magos e adorava bacalhau.

*A imagem acima foi roubada (e adulterada) a Artur Machado, fotógrafo da Glabal Imagens com quem realizei a viagem a Moçambique. A fotografia original (um grande retrato) foi publicada na revista Volta ao Mundo.

**HOMEM DE VILARINHO é uma série de crónicas de viagem criada em 2012 para a Rotas & Destinos. Muitos destes textos podem ser encontrados aqui www.grandeturismo.com/tag/homem-de-vilarinho/ e aqui http://homemdevilarinho.blogspot.pt

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