Crónicas

Conversa de frigorífico

Volto a casa com 32 graus à sombra e este diálogo a fervilhar na cabeça, ouvido ali num café de Alfama. Um casal ainda jovem, inglês, pelo menos discutiam fluentemente em inglês. Somos a língua em que gememos.
– Porque é que estás com essa cara? – perguntou ela.
– Porque é que estou com esta cara? grasnou ele – Se era para isto mais valia termos ido para o Dubai.
– Queres que peça para ligar o ar condicionado?
– Vamos mas é para o hotel.
Levantaram-se e seguiram de mão dada, desintegrando-se no meio da multidão.
Um arrufo de casal é apenas um arrufo de casal – os textos que ficam são aqueles que nos falam da vida e não da vidinha, já se sabe – a não ser que o tema seja trabalhado por um grande romancista, aí talvez as lágrimas se evaporem e a rotina acabe transformada em arte.
Não é preciso ser-se romancista, basta ser um dos melhores contistas de sempre.
Abro a porta,
ai que fresquinho,
e dou por mim à procura de um conto de Raymond Carver, Preservação, que narra o desconsolo de uma mulher perante a passividade do marido, desempregado, incapaz de arranjar emprego e, sobretudo, o frigorífico.
– Precisamos de um frigorífico novo – disse ela.
– Já disseste isso. Ei, onde é que vamos arranjar um? Eles não crescem nas árvores.
– Precisamos de um – disse ela.
– Não precisamos? Talvez não. Talvez possamos colocar toda a comida perecível no parapeito da janela como as pessoas fazem nos bairros pobres. Ou então podíamos arranjar uma daquelas geleiras em isopor e comprar gelo todos os dias.

Como é que acaba? Como todas as grandes histórias, com um ponto final em aberto.
Não sei porque é me lembrei deste conto, não tem nada a ver com viagens, são só duas pessoas a tentar sobreviver.
Talvez seja isso. As pessoas separam-se muito quanto estão juntas, às vezes por causa de eletrodomésticos, pelo sim pelo não a primeira coisa que lhe perguntei antes de nos fazermos à estrada foi: Rita, ligas o ar condicionado por tudo e por nada?
“É incrível a quantidade de pessoas que se separam a partir do momento em que começam a viajar em casal”, diz uma psicóloga a um jornal britânico que encontro caído na internet. “É natural que pensemos que não há nada melhor no mundo do que partilhar um pequeno quarto com aquela pessoa. No entanto, isso pode transformar-se num verdadeiro inferno.”
Quem é que nunca quis matar o seu companheiro de viagem?
Eu, por exemplo, não suporto partilhar a casa, o quarto, a cama e, sobretudo, o carro, com quem se queixa do tempo. Já disse nas revistas para onde trabalho (não disse nada) que agora só vou para a estrada com fotógrafos que saibam viajar à temperatura ambiente.
Ainda há cerca de dois meses, nos Estados Unidos, no Louisiana, durante uma visita a antigas plantações de algodão onde há menos de um século os escravos trabalhavam de sol a sol,
mais se 35 graus e seis palmos de humidade,
a guia, com os trajes da época, convida-nos a entrar rapidamente, que cá fora ninguém aguenta.
– Aqui mostramos as coisas como elas são – diz, logo no início da palestra, já todos sentados.
– Dá para aumentar um bocadinho o ar condicionado? – pergunta uma jornalista.
– Mais? Já estamos num frigorífico – interrompe o colega, visivelmente irritado.
É Verão. Portugal arde. Talvez o problema seja esse, nas relações como nas viagens. Pensar que podemos congelar a realidade, apagar os fogos com a boca, passear junto ao Mississipi ou subir as sete colinas de Lisboa sem suar a camisola e apanhar um escaldão.

*HOMEM DE VILARINHO é uma série de crónicas de viagem criada em 2012 para a Rotas & Destinos. Muitos destes textos podem ser encontrados aqui

http://www.grandeturismo.com/tag/homem-de-vilarinho/

e aqui http://homemdevilarinho.blogspot.pt

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