Crónicas, Viagens

“Daqui até morrer hei-de conhecer todas as pessoas do mundo”

Ando há meses com quatro crónicas no bolso. Islândia, Moçambique, cidades fantasma, road trips de autocarro e uma sobre o meu avô materno, às cavalitas de quem fiz as primeiras viagens.
São textos lentos, estes, difusos, sem princípio meio e fim, atiro terra para os olhos da página e logo vejo se tenho tempo, paciência e engenho para colher as frases quando estiverem maduras.
Às vezes o fruto do trabalho dos outros cai literalmente da mesa de cabeceira, como aconteceu hoje de manhã, com Os Três Seios de Novélia, de Manuel da Silva Ramos. Estava desaparecido há meses, ali por entre Stoner, de John Williams, Sonhos e Comboios de Denis Johnson e a Dica da Semana. Gosto sempre de saber quais os autores que o Lidl tem em promoção.
Abro o livro e encontro estas palavras sublinhadas. “Cada pessoa conhece uma circunferência de pessoas. Eu devo conhecer aí umas vinte mil. É por isso que tenho o dever de conhecer todas as pessoas que existem, senão sinto-me incompleto, vazio. E pode dizer-me que isso é impossível… não, em cada ano vou conhecendo um número certo. Abordo-as na rua. No autocarro. No cinema. Hei-de viajar. Hei-de ver. Daqui até morrer hei-de conhecer todas as pessoas do mundo. A demografia é a minha alegria. Se fosse mulher, havia de dormir com todos eles, pois mais me aproximaria de mim. Da minha real ternura. Da solução do meu corpo”.
Que las hay, las hay. Há duas semanas estive no Festival Literário da Gardunha, subordinado ao tema Escrever a Paisagem, onde dividi a mesa precisamente com o Manuel da Silva Ramos. Uma mesa de café à margem do programa oficial, para a apresentação do livro de contos do Jorge Flores, Deixem os Balcões Para os Solitários.
Leio o excerto e vêm-me de imediato à gaveta pedaços de uma crónica que comecei há meses e não amadureceu o suficiente para ser publicada: “Vezes há em que me imagino a viver um ano em cada país do mundo. Um absurdo, naturalmente. A arte da matemática está na sua objectividade e não é preciso ser-se poeta para perceber que, mesmo começando a viajar desde o berço, esta será sempre uma conta impossível. Que um homem não seja imortal lá me vou habituando à ideia, agora que nem sequer possa viver um ano em cada país do mundo parece-me de uma enorme injustiça”.
Eu nunca quis conhecer toda a gente, nem sequer os vizinhos. A minha alegria sempre foi geografia e não a demografia, se bem que, durante algum tempo, cheguei a acreditar que se dormisse com todas as mulheres estrangeiras com quem me cruzasse tornar-me-ia numa pessoa mais viajada.
Num dos painéis oficiais do festival duas professoras catedráticas e um poeta procuravam a definição para a palavra Paisagem. Fui lá porque gosto de aprender – ainda ontem pedi um certificado de habilitações para me candidatar a um Mestrado, que miséria de notas – mas não percebi nada, estou mesmo a precisar de voltar à escola. “Não há paisagem sem pessoas”, creio ter sido uma das conclusões.
Pessoas como o Manuel ou Mário Tigana, um cineasta e sábio clandestino que disse sobre os contos do Jorge aquilo que eu não tive arte nem engenho de fazer aquando da apresentação. “Gosto das tuas personagens que espreitam cinicamente a santidade ou são orgulhosamente perdidas e errantes, sabem que quem desce ao olho do cu da noite mais cedo ou mais tarde verá a luz.”
A viagem também é isto, mesmo que nem sempre consigamos defini-la. Às vezes sozinhos, a ver navios, outras vezes entre pessoas, sempre que possível amigos, a enrolar histórias com a língua durante toda a noite só para ver de perto os seios de Novélia da dona do bar.

*HOMEM DE VILARINHO é uma série de crónicas de viagem criada em 2012 para a Rotas & Destinos. Muitos destes textos podem ser encontrados aqui
http://www.grandeturismo.com/tag/homem-de-vilarinho/

e aqui http://homemdevilarinho.blogspot.pt

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