Carros

Pela mítica EN2 de cabelos ao vento com o Mazda MX-5

Se o geógrafo Orlando Ribeiro ou o escritor-viajante Miguel Torga tivessem oportunidade de ver o país tão depressa como nós, ficariam espantados com a velocidade da transição entre o Norte das serras e o Sul das planícies. Odisseia de dois dias pela lendária Estrada Nacional Nº2 de Chaves a Faro, 737,5 quilómetros pelo dorso de Portugal ao volante do Mazda MX-5.

Só há duas formas de fazer a EN2 – ou muito devagar e a parar em todas as estações, apeadeiros, casas de pasto e POI (pontos de interesse) — essa é a melhor forma de conhecer este país de risco ao meio, precisamente pelo fio que o pente traça entre o interior e o litoral.
A outra maneira é fazer a estrada muito depressa em ritmo de sprint, numa maratona de condução de dois dias ao volante do Mazda MX-5.
Não é uma cannon ball race, mas anda lá perto.
Enquanto não arranjamos tempo e maravedis para fazer a EN2 ao ritmo das histórias que a beira da estrada tem para contar, porque para o Grande Turismo todas as pessoas contam, cravamos boleia ao Club MX5 Portugal para cumprir integralmente a mais mítica estrada portuguesa.
Dois dias de cabelo ao vento pela Estrada Nacional N2, ligando Chaves a Faro, numa distância de 738,5 quilómetros, o que faz dela a mais longa de Portugal e a terceira maior do mundo a seguir à Route 66 nos EUA e à Ruta 40 na Argentina.
“A mais longa estrada”, tema deste encontro do Club MX5 foi oficialmente criada em 1944, como resultado de um dos grandes projetos do Estado Novo, avesso a obras faraónicas e que alinhavava assim uma manta de retalhos de várias estradas regionais, muitas delas com interesse patrimonial e histórico, já que reproduzem as principais vias romanas que cruzavam a Lusitânia e vieram dar corpo à antiga Estrada Real.
Atualmente o traçado encontra-se muitas vezes diluído e até submerso em outras estradas, desaparece em várias localidades, é engolido pelo IP3 e tem em muitos segmentos, um piso que deve ser contemporâneo das legiões romanas.
Com a criação de auto-estradas e vias rápidas como o malfadado IP3, “já ninguém usa a Nacional 2” e o progresso dos votos de alcatrão foi votando ao abandono esta estrada.
Felizmente, há uma nova geração de autarcas na forja e está em preparação a criação de uma associação de municípios da EN2 que pretende promover o traçado como um pólo de atração turística, recuperando-o, requalificando-o e criando uma gama de serviços associados, como o passaporte EN2, que dá direito a descontos e indicações úteis para visitar, comer e dormir ao longo do percurso, conforme explicou o presidente da Câmara Municipal de Santa Marta de Penaguião em entrevista ao Jornal I: “O objectivo é avançar com um projecto de dinamização desta estrada histórica que vai guiar os visitantes por uma viagem pelo país. A ideia é que as pessoas que façam esta rota tenham o mesmo tipo de acolhimento em todos os municípios por onde passem, tenham acesso a informações sobre alojamentos, restauração ou os produtos locais de qualquer um destes territórios”, salientou.
Se a ideia avançar, para ficar completo, o passaporte da EN2 terá de ter 36 carimbos, que é o exacto número de municípios desta longa estrada que atravessa onze distritos, desde Trás-os-Montes ao Algarve; desde as vinhas do Douro, até à Serra do Caldeirão e ao mar, passando pelas montanhas mágicas do centro, pelas planícies do Sul, galgando, ladeando ou atravessando alguns dos principais rios portugueses – Tâmega, Douro, Mondego, Dão, Zêzere e Tejo.
Um vertiginoso carrossel de curvas e contracurvas desenhado no dorso das serras, no ventre de vales, na pele de planícies. Um festim de condução com o carro ideal para esta maratona. O roadster nipónico que nasceu Miata da conversa de um jornalista com o presidente da Mazda na Califórnia, e que recuperou o legado dos pequenos descapotáveis de dois lugares britânicos —como o Lotus Elan ou o MGB – carros pequens leves, ágeis e divertidos de guiar.
Na sua quarta geração, o Mazda MX-5 atingiu a histórica marca de um milhão de unidades, a última das quais produzida precisamente no dia 24 de Abril, o que demonstra bem a sua enorme popularidade.
Neste desafio do Club MX5, destinado a proprietários e entusiastas, marcaram presença no quilómetro zero 25 exemplares de várias gerações. A nós tocou-nos o supra-sumo da laranjada — a versão equipada com o motor de 2 litros, que se distingue por ter mais cavalos para soltar nas rodas traseiras (160 cv para 1090 quilogramas de peso, mais os 180 quilogramas de Flores, Pelejão e respectiva tralha) e um diferencial autoblocante para as manter a girar ao mesmo tempo e para o mesmo lado. Apresentações feitas, hit the road Jack!

1º Dia – Prólogo
O quilómetro zero desta aventura começa em Lisboa com um quebra-cabeças. Meter a bagagem de fim-de-semana prolongado no porta-bagagens do Mazda MX5 que é pouco maior do que o porta-luvas de muitos carros. Ainda por cima Flores&Pelejão não são propriamente frugais no bagaglio (nem no resto).
É muita pasta de dentes (por acaso esqueci-me), boxers e livros para não ler em três dias.
Ainda assim, e graças a anos a torrar moedas no Tetris dos salões de jogos de subúrbios, foi possível encaixar tudo na volumetria de 130 litros da bagageira do MX-5.
O Flores está com três horas de sono no lombo, noitada de fecho da revista onde trabalha, eu estive a dormir sestinha, toca-me a mim a rodela.
A1 até ao Porto, depois direção Braga e apontar baterias ao Marão — para aterrar em Chaves a desoras. Cerca de 450 quilómetros e mais de quatro horas para ir na palheta com um velho amigo, daqueles com quem se pode conversar horas a fio sem perder pedal no conversé, daqueles muito especiais com quem também se pode ir calado horas a fio, sem desconfortos cerimoniosos de silêncio prolongado.
Na auto-estrada, ecossistema pouco adaptado ao bioritmo do Mazda MX-5, tempo para admirar a estabilidade direcional a alta velocidade do carro e a boa insonorização da capota, que permitiu ao Flores meter o seu i-phone a bombar umas músicas dos Gun`s and Roses, como que a justificar o facto de ser proprietário de um bilhete para o concerto dos AC/DC com o Axel Rose como vocalista.
Pergunta-me se quero ir, respondo, meio a desviar a conversa, que prefiro ir aos Iron Maiden. Neste treco-lareco estamos a chegar à antiga Aquae Flaviae, com cunha pré-metida à Liliana Lobo Carvalho para ir cear ao melhor restaurante de Chaves — “O Carvalho” — um santuário da gastronomia transmontana.
Sentamo-nos a comer a comida da mamã da Liliana, que é a dona e a alma do restaurante.
Nada melhor do que um bom jantar fora de horas no fim da estrada.
Antes de nos retirarmos para os nossos aposentos no Forte de São Francisco, bebemos a deita numa cidade famosa pelas suas águas termais. Á água, que é onde os peixes fazem amor, preferimos dois ou três Bushmills nuns bares manhosos de Chaves— depois, xixi cama.
O Flores meteu mais três horas de sono na pestana, em cima das três que trazia e ainda ficava a dever umas boas horas à cama.
Era coisa para lhe fazerem falta nos dias seguintes…

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2º Dia – De Chaves a Abrantes
Acordar num edifício classificado como Monumento Nacional, como o é o Forte de São Francisco, alcandorado no alto da colina da Perdisqueira é sempre uma experiência, digamos, histórica.
O forte foi inicialmente um convento fransciscano e por isso faz algum sentido que o pequeno almoço o seja também — franciscano. Torrada café e briefing com Sandra Ferro, diretora de Comunicação da Mazda Portugal e Tito Morão, organizador do evento, a darem as boas vindas e a explicar a maratona aos mais de 50 participantes. Distribuidos saquinhos com bonés, road books e ala que se faz tarde.
Apesar da chuvinha miudinha, pouco recomendável à tração traseira e leveza do MX-5, já estávamos todos com fome de estrada.
Interessante ver que no meio daqueles bravos do pelotão eu e o Flores fazíamos das duplas mais rapazolas. O resto era composto por teenagers, sobretudo casais de 50, 60 anos e desconfio que até mais. Apenas a simpática dupla do site Razão Automóvel — o Diogo e a Ana — estavam ainda a jogar nos infantis dos vinte e tais.
Admirável o espírito desta caravana, preparada para enfrentar mais de 700 quilómetros de curvas a bordo de um carro que não é o epítome do conforto, um carro com que se sonha aos 20, que se deseja aos 30, que se pode comprar aos 40, mas que só se verdadeiramente aprecia aos 50.
O tal carro descapotável ideal para crises de meia idade, bom para mim e o Flores, que partilhamos o amor por cobóiadas da estrada e a velha paixão pelo Mazda MX-5.
A partida simbólica é dada na rotunda do quilómetro zero da EN2 em Chaves. Um simples marco sem grande explicações ou luzes da ribalta. Ali começa a estrada mais longa e mais mítica de Portugal e nicles batatóides, nem um muppie daqueles comparticipados pelo QREN, apenas um anúncio do Lidl com promoções para a carne de porco.
Metemos logo os cavalos à estrada sem sequer ver a famosa Ponte Romana de Trajano em Chaves, a primeira de muitas coisas interessantes que fomos deixando no retrovisor do Mazda MX-5 à medida que pisávamos o acelerador para nos mantermos na fila indiana dos MX-5.
“Isto vai ser fazer a EN2 como cão por vinha vindimada” — desconsolou o Flores.
“Não faz mal, é uma espécie de reconhecimento do percurso, um scouting, havemos de cá voltar.” — optimizei eu.
E havemos.
A primeira parte do percurso da EN2 é feita de Chaves até ao Peso da Régua, numa distância de 90 quilómetros, que só ganham interesse cénico a partir de Vila Real. Até lá a estrada é movimentada e sem grande apelo.
Encostamos à berma nas Pedras Salgadas para beber uma água das pedras, já a antecipar o enjoo, para depois seguir em ritmo de passeio até Vila Real, a bela capital da região de Trás-os-Montes e Alto Douro.
Paragem é mentira, mas também não importa, que esta cidade é uma velha conhecida das carreras citadinas que aqui vi no histórico Circuito de Vila Real, este ano palco do WTCC, onde pontifica o português Tiago Monteiro.
A partir de Vila Real, na descida até à Régua e sobretudo depois de Santa Marta de Penaguião, as coisas começam a aquecer com uma estrada serpenteante pelos vales do Douro vinhateiro.

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O cenário é deslumbrante e sentadinho no banco do lado com o Flores ao volante, não poupo nas fotografias, feito japonês, tanto que começo a enjoar tenho de ir soprando devagarinho para aguentar e não dar parte de fraco.
O sol do Douro já brilha e é momento certo para tirar a capota e levar com o ventinho nas trombas, a cruzar o Douro para a outra margem no Peso da Régua, onde a EN2 passa por cima da outra mítica estrada portuguesa, a EN222, que vinda de Vila Nova de Gaia, vai colada ao curso do Douro até ao Pinhão e segue depois para Vila Nova de Foz Côa, estrada que foi eleita a melhor do mundo para conduzir.
Sem desprimor para quem fez essa escolha, desconfio que há troços na EN2 que batem aos pontos esta marginal do Douro. Mas já lá vamos.
Por agora, mais uma íngreme e ziguezagueante serpentina de asfalto desenhada no dorso das encostas que nos vão levar até à bela cidade de Lamego, atravessada pela EN2.
Por isso é preciso cuidado para não perder o rasto à Nacional 2, que fruto da incúria e do desprezo de autarcas e governantes, tem a teimosa tendência para desaparecer sob os nossos pés. Fazendo boa fé no excelente blogue estradanacional2chavesfaro: “A entrada em Lamego faz-se pela Avenida Dom Afonso Henriques até ao largo da Sé e a saída pela Rua Alexandre Herculano, para se retomar a EN-2 seguindo as indicações de “Mata dos Remédios”. A velha EN-2 normalmente quando atravessa cidades perde a sua identidade e toma nomes de rua, a prévia consulta de mapas é indicado, já que nem sempre o GPS nos guia exclusivamente para a EN-2.”

Abençoados e guiados pela Nossa Senhora dos Milagres agradecemos por não ter de peregrinar a sua íngreme escadaria de ornamento barroco, deixamos o MX-5 a resfolgar para uma paragem em Lamego, admirando o seu belo centro histórico, polvilhado de belos solares brasonados, igrejas, fontanários, museus e jardins. Esta é a terra dos famosos Cracks de Lamego, equipa famosa pela sua formação, de onde saíram talentos do futebol português como os internacionais Toni, José João e Álvaro Magalhães. Outra coisa famosa desta cidade, considerada uma espécie de capital não oficial de uma região não oficial – a Beira transmontana – é o presunto.
—Sande de presunto não há… — Então pode ser café e siga a marinha, que a tropa vem atrás.
Entramos agora no vasto distrito de Viseu, no país das serras e montanhas mágicas. Cumprimos o quilómetro cem, com o marco escondido na vegetação à saída de Sande, terra berço da família do nosso camarada e amigo Francisco Sande e Castro, que anda a dar a volta ao mundo de moto.
Galgamos quilómetros até Castro Daire, colecionando placas, e toponímia com nome de terras e lugares como Colo do Pito, Matanças ou Mangueijas. Outras de igual má índole se seguirão ao longo do percurso.
O estômago é o cronómetro mais implacável e terminamos a primeira secção da primeira etapa no restaurante “Forno da Mimi”, um clássico da EN2, paredes meias com a gigantesca discoteca Day After que nos seus tempos áureos até pista de karting tinha lá dentro.
Hoje só abre para festarolas revival e saudosismos da M80.
Depois de almoço mais uma sobremesa farta em quilómetros. É a minha vez de pegar no volante para o único troço da EN2 que não conhecia — de Viseu a Penacova, com o Mondego ali ao lado — já que todos os outros já os havia feito em tempos idos da Volta a Portugal em 80 dias com o Citroen C4 Cactus.
O sol aperta e a caravana segue em ritmo digestivo.
O Flores aproveita para dar uma cabeçadas no ar. O MX-5 tem uns bancos Recaro impecáveis para atacar curvas, mas impróprios para sonecas.
Atacado pela sonolência dou avanço à caravana, fico disfarçadamente para trás, para dar um apertão no Mazda MX-5 e me auto-medicar com umas descargas de adrenalina.
Começo a puxar pelos cavalos do motor atmosférico de quatro cilindros que canta de garganta aberta, mas sem grande lirismo.

O Flores aproveita para dar uma cabeçadas no ar. O MX-5 tem uns bancos Recaro impecáveis para atacar curvas, mas impróprios para sonecas.Atacado pela sonolência dou avanço à caravana, fico disfarçadamente para trás, para dar um apertão no Mazda MX-5 e me auto-medicar com umas descargas de adrenalina

O Flores acorda meio sobressaltado, mas como de costume, não dá parte de fraco. Limita-se a mudar a música. Peço “Pantera”, como num programa de discos pedidos e o DJ cumpre. Um bom bocado de pista limpa ao som de “Pantera”, trocando de apoio em sucessivas curvas com a direção bem mandada, a caixa de seis velocidades precisa e pontual e um concerto de heavy metal por aquelas serras acima. Ia no grito, mas foi de pouca dura, porque rapidamente retomamos a cauda do pelotão e não é de etiqueta ultrapassar ferozmente os nossos companheiros de caravana, sobretudo quando estamos a ouvir “Pantera” aos altos berros e os travões estão a fumar mais do que eu.
Tão distraídos que ía com o brinquedo japonês que nem deu bem para reparar que a EN2 desaparece misteriosamente, como num truque do Grande Houdini.
Para a seguir certinha o melhor é recorrer novamente ao nosso blogue de referência —estradanacional2chavesfaro— e agradecer-lhe o trabalho de batedor: “De Viseu até Santa Comba dão está o troço mais problemático de se encontrar por falta de informação disponível, mas em Santa Comba Dão a EN-2 desaparece por completo, como Estrada Património, a EN 2 tem levado machadadas muito grandes havendo troços completamente destruídos, aqui foi um desses a EN-2 foi estropiada em 18 km pela construção da barragem da Aguieira e pelo IP 3. A solução é mesmo ir pelo IP-3 e cerca de 18 km depois sair em Alto das Damas, (coordenadas 40º18’41.73’’ 8º14’02.12’’) logo a seguir a Oliveira do Mondego, ai em Alto das Damas depois da saída do IP-3 não existe nada de informação da EN-2, inclusive nos mapas aparece apenas como Estrada Nacional, aqui ou um GPS com a direção de Penacova ou consultar um mapa ampliado para certificar a direção certa que é a de seguir Porto da Raiva e a partir dai aparece de novo a sinalização da EN-2.”
É também por aqui que uma parte da original EN2 ficou submersa com a construção da barragem da Aguieira. Seguimos estrada fora até Penacova e Vila Nova de Poiares, sem mesa marcada para lampreias ou chanfanas e estamos já no distrito de Coimbra, seguindo em direção a Góis, território do Dão e das antigas etapas do Rali de Portugal.
De Góis ao Zêzere, novo traçado exigente com momentos de condução absolutamente excitantes em curvas de média e baixa velocidade, as ideais para o MX-5.
A EN2 segue agora em direção ao Pedrogão, com vista sobre as curvas do rio Zêzere que lá em baixo cintila como um fio de esmeralda. Paragem obrigatória para refresco na Picha, terra colada a Venda da Gaita, duas pérolas da toponímia nacional, que já havia visitado na Volta a Portugal em 80 Dias, sendo até pretexto para uma crónica picaresca. (Breve história da Picha).
Atravessando Zêzere na barragem do Cabril, em Pedrogão Pequeno uma das maiores de Portugal, a EN2 entra na vasta região do Pinhal Interior, um mar verde de pinheiros que se estende da Sertã até ao Sardoal.
É a maior mancha de pinheiros bravos da Europa e o melhor local para se admirar este ondulante espetáculo verde é na Serra da Milriça, onde está marcado o Centro Geodésico de Portugal, perto de Vila de Rei. Daqui até ao final da extenuante primeira etapa é um saltinho, bom para apanhar o fresquinho de uma tarde primaveril e estacionar o bólide nas cavalariças da Quinta de Santa Bárbara, edifício quinhentista em Constância que tem um restaurante famoso na região —”Cantina Quinhentista” e um turismo de habitação charmoso, de soalho a ranger e capela interior, para eu e o Flores nos benzermos depois de jantar e agradecer a São Cristovão, padroeiro dos automobilistas.
Um primeiro dia intenso e duro, cumprindo a metade mais exigente e desgastante da EN2. Deixamos o país das serras, amanhã é dia de Sul e de sol.

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3º Dia – De Abrantes a Faro
Regressamos à estrada, retemperados por uma noite bem dormida a pagar antigas dívidas à cama:
—Sinto-me como novo —chilreia matinal o Flores.
E quem é que não se sente na flor da idade quando pela frente tem uma viagem pelo coração do Alentejo num dia de sol?
Capota aberta e creme protector, que o Flores desencantou não sei onde, caras besuntadas de branco como pinturas de guerreiros do asfalto e cá vamos nós para a segunda etapa desta maratona em sprint pela EN2 com o Clube MX5 Portugal.
Trânsito intenso a um domingão para atravessar a ponte de Abrantes, sempre em obras, a estrangular a única passagem para a margem Sul do Tejo num raio de dezenas de quilómetros.
A estrada de Abrante à Ponte de Sor começa a desvendar os primeiros sinais da planície, o verdejante país começa a ficar douradinho, mas por aqui não há particulares encantos. Serve para rolar em ritmo de passeio e bronzear o braço encostado no parapeito da janela do MX-5.
Em Águas de Todo o Ano, nome de terra que deu nome do álbum à cantora Eugénia de Melo e Castro, primeira paragem da caravana, comandada pelo afável Marechal Tito.
Depois da Ponte de Sor e no percurso até Mora o cenário começa a ficar mais atraente e a estrada sinuosa. A Barragem de Montargil desenha um belo espelho de água que nos acompanha ao longo de alguns quilómetros. Este território já o tenho decorado desde miúdo, quando fazia esta viagem de carro com os meus pais de Lisboa a Castelo Branco, com paragem eucarístca nas sandes de carne assadado do Couço, a terra mais comunista de Portugal.
Depois de Mora, terra de Fluviário a merecer visita e restaurante de paragem quase obrigatória —”O Afonso”, seguimos até Brotas, deixando para trás tanta guloseima para a vista, o conhecimento e o paladar.
Já se sabe, isto de fazer a EN2 é sempre em fast forward, sempre a andar.
O sol vai-se aproximando do meio dia e o termómetro do Mazda está já a roçar os 30 graus. Em Brotas sei que havia desvio obrigatório à Torre das Águias e à sua contígua aldeia abandonada e mais à frente a um jardim zoológico perdido no meio do nada. Mas já se sabe… havemos de cá vir.
Segue-se mais um marco no mapa, que se me escapou na viagem, mas encontrei depois no google (é o que dá fazer tudo à pressa).
Na pequena aldeia do Ciborro o marco com o quilómetro 500 está empinado em cima de um muro, por causa de necessidades urbanísticas. No mapa, segue-se Montemor, terra onde o Flores passou uma noite a sonhar com cobras, sozinho no convento, nos idos da Volta a Portugal em 80 dias.
É a partir daqui que mergulhamos na grande planície alentejana e deixamos o país das curvas para trás. A passagem pela segunda maior freguesia de Portugal, o Torrão, lembra-nos que Alcácer do Sal está aqui bem perto e com ela, o mar da Comporta — apetecia mesmo um mergulho atlântico com este sol a abrasar— mas a estrada é quem mais ordena. Ainda ontem estávamos a serpentear nas vinhas do Douro e agora estamos a atravessar o país do montado de sobreiros, das longas rectas e do horizonte dourado.
Do Torrão a Odivelas (não a suburbana, mas a Alentejana e a sua bela barragem) o piso recebeu finalmente um novo tapete, a caravana aperta o andamento já com o cronómetro a marcar horinha de almoço que é sempre o melhor espicaçador dos mais lentos.
Ferreira do Alentejo é a simpática e pacata vila que dá guarida e repasto a estes cavaleiros andantes. Uma carne de porco à alentejana servida com rigor no restaurante “Salgadinho”, propriedade da Dona Alice que tem orgulhosa a sua Renault 4L cor de rosa parada à porta para os MX5 poderem namoriscar.
No pico da canícula, os bravos do pelotão MX5 regressam à estrada para cumprir a última etapa da viagem.
É a minha vez de ir para o volante e o Flores para a sesta, o tal yoga ibérico de que falava Camilo José Cela.
Dormir a bordo de um carro descapotável em que os bancos não reclinam, só mesmo para audazes. Ao Flores, audácia é coisa que não lhe falta.
As longas e monótomas rectas ajudam a embalar, pelo menos até Ervidel, mais uma pitoresca e simpática terra branca do Baixo Alentejo. Daqui até Aljustrel há algumas elevações com curvas rápidas em sequência, boas para acordar o Flores e meter à prova a capacidade do MX5 curvar colado ao asfalto em velocidades mais altas. Prova superada com evidente e seguro à vontade. Mas o verdadeiro banquete de condução estava reservado para o final desta maratona pela EN2. Depois do exercício de aquecimento de pneus até Castro Verde, segue-se o magnífico trecho de estrada entre Almodôvar e S. Brás de Alportel.
Uma estrada que está classificada como de interesse patrimonial e histórico. Mas, desta vez, para nós, a história é outra. Este é sem dúvida um dos pontos altos de condução ao longo de toda a EN2, só comparável às curvas do Douro vinhateiro.
É a subida da Serra do Caldeirão e o seu ondulante e caprichoso mar de colinas, com um piso aderente e rápido, vertiginosas sequências de curvas de média e baixa velocidade, com relevé de inclinado pendente, como se estivessemos numa oval americana ou em Laguna Seca.
Ora aqui vai disto! Inventamos uma desculpa esfarrapada para nos descolarmos da caravana e ao som do novo álbum dos Capitão Fausto que estava a passar na Antena 3, atacamos a subida do Caldeirão como se não houvesse amanhã.
Leve, ágil e capaz de avisar quando é que a traseira se vai descolar, o MX5 é progressivo e capaz de oferecer momentos de condução que só um kart pode ousar. É sem dúvida um dos mais notáveis carros de condução desportiva e também dos mais acessíveis (preços a partir dos 25 mil euros, média de consumos total de 9,5 l/100 km a abusar). O motor responde sempre às solicitações mais vigorosas à saídas das curvas, os travões não se queixam com a coça que lhes é dada, e o pequeno Mazda MX5, como um Fred Astaire do asfalto, dança por ali ao sapor de cada sapateada doseada no acelerador — de cá para lá. de lá para cá, ao som dos Capitão Fausto: “Uma malha não me vai bastar/ amanhã tou melhor/ tenho outras coisas em vista.”
Há momentos na vida em que nada mais parece existir do que a próxima curva, a liberdade total e um asfalto limpo de preocupações.
Somos estrelas da nossa própria canção pop e essa é a forma mais musical e extraordinária de acabar esta longa maratona pela Estrada Nacional 2.
Olhando do cimo da Serra do Caldeirão para o mar azul que se estende à nossa frente e descer até ele, o mar do nosso contentamento e marco do quilómeto 738,5 colocado à entrada da cidade de Faro.
Chegámos ao fim da estrada, numa aventura partilhada com um amigo de sempre, no carro dos nossos sonhos, no país que amamos. Um país que vimos de alto a baixo em dois dias, em fast forward, como personagens de um incrível time lapse que nos permitiu ver de forma acelerada as grandes transições geográficas e culturais de Portugal. Um pequeno grande país que mede 800 quilómetros de altura, mas onde cabe tanta e tão boa coisa e tanta e tão boa gente.
Esta é uma viagem que nunca esquecerá.
Flores, camarada, havemos de cá voltar. Mas para a próxima naquele CX5 com um ar confortável que ali está parado. Deve dar para dormir umas boas sestas que já estamos velhos para cowboys do asfalto de cabelos ao vento. Além disso esqueci-me de meter protector solar nas orelhas que estão a descascar como as de um marciano.

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PS: Quem quiser ir lendo sobre a EN2, pode consultar o competente e exaustivo blogue estradanacional2chavesfaro. Ou comprar os livros: “Longe do Mar” do grande repórter do Público, Paulo Moura, que reune uma série de reportagens que fez ao longo da estrada em 2007.
Noutro género, igualmente interessante, é o caderno de desenhos “EN2” do ilustrador João Catarino. Para breve está também a edição de um livro do nosso amigo António Mendes Nunes que andou a vadiar durante dez dias por esta monumental estrada.

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